quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

esvaziando-se, encontrando-se

esparramado rendido
n'água turva e espessa
que lambe meu corpo nu
com suas línguas
cálidas pacíficas
o sussurrar das gotas
é acupuntura no espírito
deságua minh'alma
vaza amainada
os pensamentos
em uníssono com a natureza
matéria que se confunde
se converte em riso lânguido
que a neblina vai silenciando
ao passo que se distancia

Depoimento

Sei que possuo uma genialidade feroz pra escrita, mas só não tenho modos de provar ela, se é que eu sinto necessidade disso agora já que tô aqui na sua frente, ocupado. Pois então, vêm as ideias e é algo selvagem, uma intensidade do caralho que me deixa com uma tontura louca. Eu saio por aí correndo, até nu quando é de noite, catando papéis, e meu Deus onde é que eu coloquei o lápis? e tal, aí eu vou me arrastando, tremeluzindo como luz de vela, como que tomado por uma vontade repentina de dar aquela mijada. Nem tempo de me sentar eu tenho; me largo no chão mesmo esperando aquele ápice que vai me fazer botar tudo aquilo pra fora e que vai ser a salvação praquele estado de esgotamento. Mas as palavras não vêm, não vêm, não vêm, elas fazem peraltices com minha vontade talvez porque materializar o que eu penso é o curto pavio que depois de aceso vai causar o colapso do mundo, sabe? E essa linha... essa linha é tênue, melhor que não se rompa. Escrever é muito como um jogo de combinações que eu sempre perco, entende? A disposição errada dos caracteres, das sílabas, das consoantes e uma palavra ao invés da outra fode toda a mensagem, acaba falsificando minha expressão. É aí que eu falho. Vou te dar um exemplo: pode me vir à mente a nasalada “saliência”, quando minha vontade era de meter uma gravidade, tipo “protuberância”. Não que eu despreze a “saliência”, mas a “protuberância” dá pra comer. Imagina só que você começa e o “pro” é como se você encostasse os dentes na casca de uma manga, no “tu” cê finca os dentes, tá imaginando? Então, no “berância” cê fica contemplando aquela sangria e o néctar amarelo e viscoso escorrendo e ensopando suas mãos. Cara, isso é fantástico, tu não acha? E toda essa experiência sensorial numa palavra! Pensa só num texto inteiro... Mas a “protuberância” nunca vem na hora que eu quero, e me deixa com uns sintomas, porque me dá uns espasmos no pescoço e meus dedos ficam exaustos de tanto estalar, num esforço de acender aquele isqueiro que é o resgate da “protuberância” que eu preciso nesse instante-agora. É como se no mar da minha mente, do cardume do vocabulário, a “protuberância” se aproximasse da praia através das ondas, salgasse minha consciência de leve num beijo e voltasse na vazante, na contracorrente da minha língua e da ponta dos meus dedos. Agora, me explica como isso pode acontecer logo comigo, um ser que trabalha com as letras? Já estou pensando que é algum tipo de doença incurável, ou talvez algo incompreendido pelos homens. Primeiro, chegam os colegas de trabalho. E eles chegam sorrindo, como se as coisas corressem como um rio, que se por acaso se depara com um percalço, dá seu jeito, se contorce, muda seu curso prum outro nem que seja desconhecido, só pra continuar com sua sina. Mas eu... Eu sou uma barragem, um dique. E os filhos da puta sentam e começam aquela orquestra caótica de teclas, produzindo simultaneamente todas aquelas notícias. Mas até aí está tudo sob controle, ainda tô calmo, embora haja um desespero velado de me colocar à frente da tela branca com uma barra piscando a cada segundo. Sinto que vou ser engolido por ela. Chamo isso de complexo de Deus. É a porra de uma tela branca, um nada, um vazio, de onde podem ser criadas todas as coisas. Então um sujeitinho de merda me grita sobre o dead line e eu fico pálido. A barra ainda não saiu do lugar. A pressão do momento me afivela, me doma como a um cavalo, e eu desato a escrever freneticamente no último minuto do segundo tempo. Entrego o que eu fiz em cima da hora, ainda meio atordoado, sem ter muita noção do resultado. No dia seguinte debulham minha dignidade com uma porção de elogios. Penso: “essas porras devem estar me sacaneando. Devo escrever umas merdinhas de texto, mas eles me mantêm no trampo porque os tempos são de crise e precisam de algum divertimento de vez em quando pra seguirem com suas vidas.” Não é autocomiseração, nem falsa modéstia, só sei que o que sai no papel – quando sai – é o feijão com arroz que a gente come todo dia. E feijão com arroz todo mundo faz, todo mundo posta na internet e fica à vista de milhões de pessoas planeta afora. E a minha impressão é que as ideias são muito parecidas umas às outras, conectadas de alguma forma por um fator-comum. Hoje todo mundo é conhecido e achque conhece um pouco sobre tudo, mas na verdade falam tudo sempre sem dizer nada. E a originalidade pra mim só vem no improviso. Eu queria muito saber improvisar no papel, e que esses improvisos fossem intensos e capturassem como fotografia todo o instante, o aroma, os sentimentos, o rodopio, a temperatura, e que essas descrições fossem tão fidedignas ao ponto de causar torpor no leitor, que se assustaria com a impressão de estar sendo transportado, escorregando devagarinho devagarinho pra outra dimensão. Queria me ver como um músico de jazz, bondosamente acariciando seu sax, pá-rá-ri-pá-rá-riiii-páráripápá, deixando que ele cante seu canto sinuoso, que vai passeando pela casa toda iluminada de azul, meio opaca pela fumaça dos cigarros, e que por fim alcança os ouvintes todos, massageando seus egos e psique. E o músico é o mais bravo de todos os seres humanos. Ele é o instrumento de um plano desconhecido, catalisador da arte metafísica, que segue suando em bicas não por estar exausto, mas por exalar tanta vida que seu corpo terreno e finito e perecível não consegue conter justamente porque o que atravessa ele, o que o possui e o toma por completo, tem uma aura de algo que não é de sua natureza. Se você já assistiu uma apresentação de jazz sabe de que arrebatamento tô falando. O músico está ali, na sua frente, tão vulnerável mas pouco se fudendo pra você e pros outros na plateia porque agora ele está num elevador, subindo pra patamares tão acima que a gente nem imagina, e o que resta aqui embaixo é algo etéreo, luminoso, harmoniosamente vulgar, e que mesmo depois de horas, bem longe dali, fica ressoando na sua cabeça e movimenta o corpo, faz tamborilar os dedos e assoviar algumas notas da melodia. É disso que eu tô falando, da melodia como elevação. Não que os textos não tenham melodia nem elevem, pelamor!, eu nunca diria uma coisa dessas porque estaria mentindo, já que já me senti exaurido muitas vezes pelas viagens às entrelinhas dos meus autores favoritos, que me fizeram acreditar num mundo invisível pelo toque das vozes deles, entende? Porque se alguns deles já morreram e continuam se comunicando com a minha alma flagelada, e me dão paz e conforto, é porque um algo indecifrável existe. Mas veja, não me leve a mal, músicos são seres abençoadíssimos pelas musas com o dom da eternidade. Quer ver? Olha só, por exemplo, se eu te pedir pra cantar sua música favorita, cê vai conseguir certo? Até as suas da infância eu aposto que tu é capaz reproduzir. Agora, vê só, se eu te pedir pra recitar o primeiro parágrafo dos seus romances de cabeceira, assim, de memória, cê seria capaz? Achque não, né? Às vezes eu mesmo achque tô exagerando pensando dessa forma, mas outra parte de mim me dá total razão, porque as artes cênicas e seus gestos e suas expressões faciais são universais, a música é universal, as cores que servem os pintores são universais, mas e a escrita? Até ela provocar em gente estrangeira esse 'algo', que eu vou chamar aqui de it, do inglês, você vai depender de uma tradução decente, sem contar as expressões das línguas que caem em desuso com o tempo, saca?... Embora... Tá, talvez eu esteja sendo injusto... E, talvez eu esteja exagerando mesmo... Ou sendo bem sincero, talvez eu sinta inveja desses caras geniais que estão por aí, que não têm só a capacidade de escrever bem, porque isso se adquire com alguma prática e disciplina, mas eles possuem olhos especiais, poéticos, que enxergam o it das coisas, e eu só enxergo o it pelos olhos deles. Ou melhor, eu até vejo, mas como eu já contei, não consigo pôr no papel, e também não tem como sair de outra forma que não seja pela escrita porque eu já tentei. Cara, isso me dá um desespero!, porque eu tô solteiro, não tenho contato com a família direito, nem pai e mãe vejo, e meus amigos vão morrer ou eu vou acabar morrendo pra eles um dia... e o que eu escrevo na redação, e que é lido diariamente no jornal sem constar minha assinatura, amanhã não embrulha mais peixe como costumavam dizer, mas serve de pinico pros cães ou forro contra respingo de tinta ou vai pro lixo. E então onde minha existência fica? Quer dizer, meu legado se resumirá a... ao quê? Tá muito difícil ser lembrado hoje em dia. A concorrência é muita, cada dia é um que surge, e até quem não devia ser lembrado acaba sendo, e dá enjoo a ideia de a única referência sobre mim ser uma lápide com o dia em que eu nasci, embalado por uma série de sonhos projetados dos meus pais, e a data em que eu tropecei e caí na cova, e aí uma inscrição do tipo “aqui jaz a barra que piscou inerte a vida inteira”, sabe? Quero que meus leitores carreguem meu corpo debaixo do braço até um sarau e me recitem em voz alta, e que as vibrações das vozes me ressuscitem e despertem sonhos de gente adormecida, apresentem o it que tá a nossa volta, e que falando da minha cidade e da minha realidade e sobre o que sinto eu toque gente da puta que pariu, que nunca tinha lido algo brasileiro que tocasse tanto, como se minhas palavras tivessem viajado o mundo pra existir só pra elas. E quero que esta repercussão aconteça enquanto eu ainda estiver vivo e me leve a conhecer gente louca, curiosa e interessante, bacana mesmo, pra figurar naquelas fotos documentais com aquelas legendas tipo “fulano, ciclano e beltrano, representantes do movimento tal”, que reuniria gente de todas as artes, todos brasileiros, e seria vanguarda e referência pra todo mundo, então eu abandonaria minha carreira pra viver de fato, porque não haveria mais aquele esforço mecânico e artificial e tudo fluiria bem como sempre deveria ser, afinal, eu penso que a vida ideal é aquela que segue fluindo sem esforço... Mas enfim, não é isso o que acontece. Na verdade, tô bem longe dessa realidade. Pra vingar, só tendo um derrame de todo lado esquerdo do cérebro pra me livrar do meu eu crítico e repressor da minha criatividade. Bom, e enquanto meu eu enrustido não se liberta, não vejo motivos pra estar aqui, então achque podíamos encerrar, né? 
Sim, eu sei.
Mas não posso, não dá! Cê não vai conseguir nada comigo. 
Não tenho o que você quer, tá bem?, então vamos parar. Se quiser te indico alguém, tá cer-

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Tarja Branca

Ô, solta da minha mão,
me larga!

Já calcei minhas galochas
e vou chapinhar nas poças
dos meus problemas.

Friagem:
deixe que venha,
deixe que assopre,
deixe que me resfrie.

Não, mãe,
joga esse guarda-chuva pra lá
e vem cá você também,
porque o convite é de brincar
com a queda livre das gotas grossas,
que vão redesenhar
o contorno do meu corpo,
vão lavar a minha alma de caliça,
puída pelo cansaço
crônico dessa sociedade.

Hoje, cidade,
não quero teu cinza,
não quero teu asfalto,
não quero teu estresse.

Vem, pai,
grama nunca fez mal a ninguém!
Coragem, vai,
aproveita essa chuva enquanto tem.
Só pendura aí esse sobretudo
que a gente veste pra parecer adulto
porque a água não gosta dele não -
deixa ele bem pesado
e assim fica difícil saltar.

Ô, se esbalda,
se solta!

Curte essa sensação
de se sentir molhado,
de tremer com o frio,
de ficar com os lábios roxos
e os dedos enrugados,
porque amanhã...

Amanhã pode ser tarde:
a previsão é de sol
e vamos ter outras coisas
pra fazer!

sexta-feira, 31 de julho de 2015

“A metáfora da casa nova” ou “Rem(o)e(r)ndo os pontos que precisavam ser esquecidos”

Ocasionalmente, é saudável se desapegar daquelas coisas que não servem mais para nada, exceto atrair traças. Como os poemas sobre você, que eu pesco lá do fundo do baú. A tinta está fresca, mas a imagem que me invade através dos olhos é de papéis amarelados, carcomidos pela ação do tempo. Cheiram a sentimentos apodrecidos, parcialmente digeridos.

Improviso uma antologia. Leio-a em voz alta de cabo a rabo. Então rasgo os papéis, um por um, da estrofe ao verso, palavra a palavra. Desfaço os cacos na lixeira posta ao centro do quarto, e quase como num ritual, respiro, profiro palavras ininteligíveis e acendo uma fogueira imaginária.

Sentado na cama, aguardo as chamas gulosas consumirem tudo. A marcha fúnebre vem com a onomatopeia da brisa, que levanta as cinzas e parte com elas pela janela entreaberta. Avisto-as pelos ares, sintaxe embaralhada, semântica confusa, transformando você num discurso diferente a cada boca que passa, até se tornar incoerente. Satisfaço-me com a imagem, e sigo com a minha vida.

Mas o mundo é mesmo tão minúsculo, e sua rotação, tão veloz! O curso dos ventos sempre regressa para o ponto de partida, assim como o cão está para seu vômito.

No calor sufocante e desesperador do momento, sou levado a tomar medidas radicais. Finjo que tal pessoa não existe. Deleto fotos, mensagens, suas redes sociais, o telefone da agenda. Sumo. Passo ao largo dos lugares em comum. Excluo seu nome da pauta de conversa entre amigos.
Talvez por falta de um teco mais de coragem, ou por simples masoquismo mesmo, me esqueci de tomar a medida mais importante: descalçar os sapatos, virá-los do avesso e sacudi-los. Porque no fundo, no fundo, sem saber como nem por que, a gente se acostuma a colecionar certos amores marginais, que incomodam a sola dos pés como pedrinhas. Aquelas mesmas de brilhantes com as quais eu mandaria
                                                                                                                         
          




domingo, 3 de maio de 2015

haiku

Na Sala São Paulo,
dois pianos dialogam
sobre Tom Jobim.

Contando Cicatrizes

Era para ser um ato breve, mas paro em frente ao espelho e observo o penteado. A franja que usei minha vida inteira ainda está ali, disfarçada, apenas besuntada de gel e jogada para trás. Minha mãe adorou quando eu fiz isso pela primeira vez. Disse que podia ver meu rosto e que eu não parecia mais um menino. De pronto perguntei o que diabos eu parecia então senão um menino, ao que ela respondeu: “Um homem, Gustavo. Um homem.”

Com a testa descortinada, o que me chama a atenção em seguida é uma pequena marca e sua coloração esbranquiçada que destoa do restante da pele. Sou instantaneamente levado para uma tarde do passado em que tropecei e bati com a cabeça numa grade. Tinha lá meus oito anos e estava no recreio. Fui levado às pressas para a diretoria abrindo um berreiro que deve ter alcançado facilmente os céus, enquanto tentava estancar com as mãos sujas o sangue que jorrava aos borbotões. Ligaram para a minha casa. Meu pai veio me buscar. Ele afastou minha franja do machucado e disse, numa mistura de repreensão e alívio, como por pouco aquela traquinagem não havia lesionado seriamente o olho e – “graças a Deus que isso não aconteceu” – danificado a visão. Fui para casa, recebi compressas de gelo e não pude cochilar porque meus pais não deixavam. “Por causa da pancada, que foi forte, filho.”

A cena é bem trágica, mas antes que isso tudo acontecesse, estava me divertindo à beça. Brincava de pega-pega com meus amigos, e a vez era minha. Como nessa época eu tinha meus problemas respiratórios controlados, mas não totalmente resolvidos, sempre ficava em desvantagem. Tinha que redobrar o esforço para pegá-los. Mas lembro de que eu ria tanto que poderia molhar as calças se não me controlasse. E foi este ápice que precedeu a queda: gargalhava copiosamente antes de amargar a dor em lágrimas.

Escorrego o olhar pelo resto do corpo até encontrar uma mancha roxa no meio da costela esquerda. Adquiri-a ao cair num buraco com barras de ferro enferrujadas e entrelaçadas que, embora tenham ficado com pedaços da minha pele de recordação, livraram-me de sumir por inteiro dentro do nada. Posso jurar que quebrei algum pedaço da minha costela neste episódio porque a considero meio torta, mas minha mãe não dá muito crédito. “Provavelmente teria perfurado seu pulmão e você teria corrido risco de morte”, ela sempre afirma, acrescentando um tom trivial ao que seria uma tragédia. De qualquer forma, no prólogo desta história eu me sentia bastante feliz por nenhum motivo aparente. Daí quis visitar meus primos, e no momento em que me virei para perguntar aos meus pais se podíamos dar uma passadinha lá, eu perdi o chão, literalmente.

Aos poucos vou me recordando de outras ocasiões que podem não ter deixado marcas visíveis, mas que foram dolorosas, antecedidas ou não por momentos alegres. Como aquela vez que trombei com um amigo na esquina em frente à minha casa enquanto andava de bicicleta em alta velocidade. Ou quando suguei água com detergente ao invés de soprá-la para produzir bolhas de sabão com a ponta do canudo. Como esquecer quando meus pais doaram um cachorro que amava enquanto eu estava fora de casa? Que dirá então daquela vez que eu quis colocar um bezerro no colo e tomei um coice nas partes...

Percebo então que conforme os anos passam, a gente deixa que as responsabilidades do presente e o receio em relação ao futuro nos roubem o direito de deixar as coisas acontecerem como devem acontecer. Nos privamos de passar por certas situações por motivos que os adultos têm bastante facilidade de listar: medo da intolerância da sociedade a falhas, medo de sentir-se inseguro no meio do caminho, medo de tomar o risco das decisões e suas consequências, medo do que os outros vão pensar, medo de gozar uma dose de ludicidade às vezes (ou sempre) necessária, medo de chegar ao fim e ver que não era bem aquilo que se esperava, medo do que é incerto, medo de se machucar, medo até de pegar mais leve consigo mesmo.

Crianças fazem o que fazem justamente porque seus medos são outros, bem menos “sérios” do que esses. Aventurar-se é o lema delas.

A verdade é que até rir demais faz a barriga doer, e nem por isso deixamos de achar graça das coisas. Então, se for para doer, que seja pelo riso excessivo. Mas se for pela via oposta, a do lamento, que seja tratada a seu tempo para que resulte em algo bom. O fato é: mesmo as dores mais lancinantes e persistentes, por piores que sejam, uma hora passam, curam e tornam-se cicatrizes. Interagir com a vida dá nisso mesmo, é inevitável. E essa verdade batida, por vezes relatada pela humanidade, permanece sem sentido até que a vida se encarrega de ensiná-la, cedo ou tarde, a cada um de nós. Parece-me agora que uma existência cheia de cicatrizes e experiências é preferível a outra de mera sobrevivência, passada em branco. Melhor é aprender com os fatos do que não vivê-los e ainda assim julgar saber sobre tudo. Neste sentido, lamento não ter escoriado mais vezes ou quebrado alguns ossos na infância... Algo que pode mudar daqui para frente. Há tempo. E minha franja permanece aqui.

domingo, 26 de abril de 2015

Na Estrada

Peguei o carro do meu velho do nada
e fui rodar pra bem longe daquela casa, 
bastante atento às caras de todo mundo
procurando esse 'algo' q'eu sinto que quero tanto
também de olho prum lugar que seja
ao extremo norte pra ficar na minha velhice
mas q'eu na verdade não quero encontrar nunca
porque daí vou acabar aquietando o facho,
vou me sentir triste, solitário,
e isso eu não quero não.
Tô viciado mesmo,
preciso desse tormento,
desse movimento que é a vida.
O cantinho da minha felicidade, da minha alegria,
é mesmo sem rumo e sem endereço.

- 9 -

De repente, vi meu sol 
tingir-se de entardecer 
e pôr-se no meu horizonte.
Então houve trevas eternas.

- 8 -

Reclamar da vida
é pecado imperdoável 
quando bem ao lado
um pássaro gorjeia
e banha-se feliz na bica!

- 7 -

Não era poeta
Mas fez-se poesia.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Ligando os pontos


Ponto. Ponto. Ponto. Ponto. Ponto.

Fico assim por alguns minutos, batendo a ponta da lapiseira no papel em branco a intervalos regulares como uma máquina de costura, mas sem remendar nada. Ligar estes pontos também não seria de modo algum proveitoso, a não ser que a abstração passasse a andar de mãos dadas com a razão. E isso não iria acontecer. Nunca. A confusão de sentido me serviria apenas para indicar simplesmente que você está aqui, como sabiamente escreveu Duvivier.

Mais três pontos e eu fico reticente. Então começo: "O meu amor". Rabisco. Não é bem isso. Não é assim que quero começar. Ponto.

Amasso a folha sem cerimônia. Jogo o embrulho sobre a lixeira e o observo quicar e rolar sobre o monte de outras bolinhas até cair no chão. Alguns dos outros pontos são visíveis daqui. Se assemelham mais a marcas de bala sob esta iluminação bruxuleante de velas; são marcas gráficas dos segundos torturantes que perfazem esta noite moribunda; sua presença jaz em peso neste quarto.

Foco. Preciso escrever.

Talvez seria mais fácil tirar uma fotografia sua, porque eu ainda não possuo nenhuma. Assim obteria rapidamente a sua imagem fidedigna e pronto. 
Desisto da ideia. O caminho mais fácil não seria a resolução do meu problema. Escrever é expurgar, aliviar. É libertar uma parte deste ser que me leva cativo os pensamentos para navegar livremente pelas outras páginas do meu caderno, cheio de estrofes e parágrafos que a esta altura do tempo são apenas lápides de quem amei nesta vida. Lido bem com a morte como ponto final, mas seu início é sempre de esperança. Sim, por vezes remendada, mas ávida esperança. Leio cada texto e relembro paulatinamente de cada alma ali representada. Nenhuma delas me causa dor mais por não terem me correspondido. Muito pelo contrário, meus textos são como escapes. Por isso prefiro escrever. Fotos, por mais úteis que sejam, são apenas registros estáticos do todo. Mas quando deito a imagem de quem me inspira no papel, posso saboreá-la aos poucos e subjetivamente a medida que corro os olhos pelas linhas. Também posso voltar a lê-la sempre que quiser. Basta abrir o caderno, como um álbum de fotografias.

Você é novidade pra mim. É a primeira vez que peno para escrever a respeito do que sinto. Você é rebelde, teima em ser indomável, azucrina minha mente sem marcar hora. Mas de hoje não passa. Então recomeço pela enésima vez: “Seus cabelos”. Detestei começar assim, mas paro antes de rabiscar a frase prematura. Se eu reescrever sempre que ficar insatisfeito, não vou terminar nunca. Talvez você seja assim mesmo, sem pé nem cabeça.

Seus cabelos.

Negros. Finos. Lisos ou levemente cacheados dependendo do dia. O estado desta alma eu reconheço pelos fios, dispostos de acordo com seu humor. Às vezes eu largo-me neste breu por meio da imaginação, embora seja uma ideia prazerosamente péssima. Ponto.

As pálpebras arqueadas emolduram olhos castanhos e cinzentos que se acendem com a luz como carvão incandescente. Quando há riso, eles perdem espaço no rosto, então eu fico confuso, já não sei se prefiro uma forma a outra, porque eu amo estes olhos, porém adoro igualmente a risada, ao ponto de que seria desimportante o fato de talvez deparar-me com esta alma na esquina, impossibilitado, por algum motivo, de estabelecer qualquer contato, contanto que de repente algo pudesse lhe provocar uma risada audível, escancarada, porque daí eu voltaria para casa leve, tendo a plena sensação de um dia ganho. Ponto.

Eu falo e esta alma ecoa uma resposta. Eu respondo e não tão cedo esta alma vai dizer algo mais. Aguardo, incontido de ansiedade. Isso não é de todo ruim. É como esperar uma carta. Adoro cartas. Ponto.

Parte da minha discografia está comprometida. Cada canção é um frasco. E muitos dos frascos acabaram preenchidos com sua alma liquefeita. Mas isso foi tão voluntário quanto “escolher a chuva que nos vai encharcar até os ossos quando saímos de um concerto”, diria Cortázar. “Como se se pudesse escolher no amor, como se amar não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio”. O que quer dizer que estes frascos serão meu alento ou meu tormento no futuro. Ponto.

Meu quarto aos poucos torna-se cenário de um dilúvio. Ponto. A correnteza vai me levando. Destrincho meus pensamentos, evoco cenas do papel. Ponto. Vou tecendo desta alma também as imperfeições que já posso identificar. Ponto."O amor é cego mas hoje eu posso ver tão bem". Ponto. O coração releva, tenta ser paciente. Assim se vai, etecetera, ponto, ponto, ponto, ponto, ponto.

Arfo.

Perto daquilo que considero o último parágrafo, detenho-me para reler o texto na íntegra. Ligo os pontos e é quando me vem a doce surpresa: tenho a reconstrução de nosso único encontro. Quantitativamente o único porque creio que a vida calhou de construir labirintos para que ainda não houvesse outras oportunidades. Qualitativamente foi único porque minhas sensações puderam provar do que até então eram meras peças avulsas e desconhecidas de vários quebra-cabeças. Foi a chance que tive de ligar olhos aos olhos, nariz ao nariz, boca a boca; meus ouvidos à sua voz e minhas mãos aos seus cabelos. Suspiro de nervoso. Estremeço frente à vivacidade da lembrança. Agarro-me a ela com unhas e dentes, afrouxando os membros o suficiente para não sufocar. Meu peito enruga de saudades como os dedos após muito tempo imersos na água. Ponto.

Mas ponto por quê?

Espera.

Não posso terminar com um ponto.

Reflito um pouco mais.

Não é final, apesar de tudo.

Aquieto-me.

Não ainda.

Ponto. Ponto. Ponto. Ponto. Ponto.

Fico assim por alguns minutos, batendo a ponta da lapiseira ao cabo da linha a intervalos regulares como uma máquina de costura, mas sem dar acabamento a nada. Então limpo o suor da testa, exaurido porém satisfeito. Fecho o caderno e finalmente deito-me, em par com a paz.