sábado, 6 de dezembro de 2014

Trecho avulso de uma noite qualquer

Não tava aguentando mais! Aquele cheiro maldito de cigarro tava em tudo: sofá, cama, cortinas, nas minhas almofadas. Parece que até as frutas e meu arroz e feijão se contaminaram. Mas que porra! Por isso já faz dias que eu não fumo. Peguei nojo. Ao menos isso ela fez bem causar em mim. Sobre as outras coisas que ela me fez... Not fair, meu amigo, minha amiga, not fair.
Tô aqui vomitando tudo isso pra você, a essa hora da madrugada. Obrigado pela companhia. Você é um gentleman, uma verdadeira lady. Estes são meus momentos, sabe, os que eu penso mais. Principalmente por um fator incontrolável. Me sinto sonolento durante o dia inteirinho e à noite o sono foge de mim como uma galinha que tá pra ser sacrificada. Ou melhor, como o Coelho Branco. E quando eu consigo agarrá-lo, furioso, já pelas cinco e meia, é como se ele gritasse, esganiçado: “Você tá atrasado! Você tá atrasado!”. E realmente é assim. O sono anda me atrasando tudo, e duma perspectiva macroscópica, a minha vida por completo. Espero que a morte se atrase também... Gosto de viver, embora às vezes pareça masoquismo.
Por agora, mesmo que o Coelho Branco sumisse de vista, eu ainda assim não conseguiria embalar no sono. Aquela puta é quem roubou-me este direito. Sou trabalhador, preciso dormir, droga! Não se faz isso com um cristão. Mas é batata: é deitar a cabeça no travesseiro, a imagem dela me vem. Minha impressão é que quando coloco a cabeça na horizontal, minhas piores memórias caem num compartimento de pensamentos que são projetados na mente. E então... Cá sempre estou, caminhando a ermo. Mas é terapêutico, devo dizer, e um tanto poético. Esse asfalto que fica carregado de automóveis e aquece mais que o inferno, à noite se estende como tapete vermelho, só que cinza, pra receber pessoas como eu e você – ou melhor, só a mim porque você está aqui por minha causa. Apesar dos pesares, gosto de maturar o sofrimento desta forma. Por isso que as noites são minhas melhores conselheiras. É um papo de escuridão para escuridão, entende?
À noite, à noite, à noite; eu, eu, eu... – I’m sorry, tô falando demais sobre mim. Conte-me, como anda a vida? Podemos parar num bar que costumo ir. É um pouco longe, mas se aumentarmos o compasso, chegaremos logo. Necessito de algo forte para rasgar-me por dentro.
Pensando melhor, encher a cara seria igualmente péssimo, porque ela era de beber também. A tentativa de fugir do ectoplasma dela me levaria de volta a ele. Quer saber? Foda-se. Pelo menos eu tenho direito e motivos de sobra pra ficar bêbado porque, além de trabalhador, sou um ser humano, filho de Deus. Aliás, ela bebia como um homem e nada se percebia de alterado – continuava com aquele maldito ar de superioridade que me deixava de joelhos. Suas únicas alterações estavam nos olhos, que ficavam meio fechados, e na fala, um pouco rouca. O quê? Parecem sinais de embriaguez? Pois te juro que não eram. Tanto que ela sempre estava sóbria o suficiente pra me levar de volta pro apê entre tropeços, quedas e golfadas. A megera ria da minha cara como se eu fosse um puppie dela, um bicho que pudesse achar cute quando fizesse gracinha. Se você pudesse entrar na minha mente, logo entenderia o que tô falando. Mas não, não faça isso. De miseráveis o mundo já tá cheio.
Falando nisso, como será que deve estar aquela lazarenta? Sequer se lembra de mim, creio eu. Deve estar descansando tranquila ao lado de um outro trouxa qualquer. Me chupou o néctar e me largou bagaço... Pelo amor de Deus, fala alguma coisa, não quero mais pensar nisso. Acho que antes de trabalhar vou acordar mais cedo – ou melhor, emendar a noite ao dia – e passar a navalha nessa barba. Preciso criar um ódio maior que este carcomido aqui para tentar esquecê-la. Sim, sim, não gosto de ficar com o rosto limpo. Parece que os pelos dão certo respeito aos homens. E como minha feição é séria mesmo quando estou feliz, as pessoas sentem medo de puxar conversa e me deixam em paz, ainda bem. Não, não que eu seja antissocial, mas gosto de ter meu espaço. E não é que na primeira vez que nos encontramos ela teve a audácia de romper esse limite e falar comigo, descaradamente, em lugar público, assim, de repente? Estávamos subindo pelo elevador. Me avaliou de alto a baixo e perguntou se eu não queria desistir do que quer que eu estivesse prestes a fazer e apertar o botão do térreo e sair com ela naquele exato instante, dá para acreditar nisso? Não é cena de cinema não, tô te falando! Aquela ali é porreta das ideias! E eu? Obedeci. Meu erro, aliás, foi ter obedecido. Dali começou todo esse furdunço, esse enrosco. É, isso define perfeitamente o resultado: um enrosco. E mais: também uma dor de dentes dos diabos, porque naquele dia eu tava justamente indo ao dentista tratar disso. Nem aspirina dava jeito. Tava virando um pau porque não conseguia comer.
Eita, bem lembrado. Onde será que eu coloquei minhas aspirinas? Se eu sentir dor algum dia desses, morro, e ninguém vai saber. Perdi a localização porque ela mudou tudo no meu apê. Uma vez eu, insone que sou, tava descansando pra valer, daí fui acordado por ela aos sacolejos. Fala, manolo! Tudo nos conformes por aqui? Mas que beleza, hein?! Ei, me veja um absinto pra dar um choque no fígado. Vai querer o quê? Manolo, perdão, me veja dois! Então, onde eu tava? Ah, sim. Então... Fui acordado aos sacolejos, né? Sabe o que ela me pediu? Uma escrivaninha com várias prateleiras para colocar os seus livros, que chegariam no outro dia... Ela não me deixou dormir mais. E também me atazanou no trabalho até que eu ligasse pra um marceneiro amigo meu e disponibilizasse a tal da escrivaninha que ela queria. O síndico me xingou à beça quando o móvel chegou e eu tentei subir com ele.. Valeu manolo! Se duvidar, minha família deve estar amaldiçoada até a quinta geração. Mas se estiver também, foda-se, não quero ter filhos mesmo...
A escrivaninha foi canonizada. Eu não podia sequer tocar nela porque a bendita não deixava. Besta. Quando não tava na correria do jornalismo, tava metida nos livros, porque fazer amor mesmo, só quando surgisse a vontade nela. Então lá ia eu, abandonado, pro quarto, matar sozinho a minha vontade, se é que você me entende. Aquilo me dava nos nervos! Era um tal de Doutorésqui pra lá, Chamarovi pra cá, e Machado, e Cortázar, e George Amado e blá, blá, blá.
Me sentia um asno perto dela. Para tudo havia uma explicação, um conhecimento a respeito, e eu ficava com cara de besta, só assentindo, fingindo entender alguma coisa. O que eu mais odiava é quando ela lia os livros de... – como era mesmo o nome? – psicanálise, certo? Me analisava o tempo todo, me descrevia, às vezes até na frente dos outros. Ficava puto da vida porque ela acertava. Me sentia pelado como vim ao mundo. Por causa dela eu descobri quem sou. Agora tô livre disso, mas não tô livre daquela escrivaninha que me assombra todo dia com seus vazios, indicando Ela esteve aqui. Não tenho nada para enfiar ali e preencher o vácuo. Então eu fico sentado em frente ao móvel, paralisado. A madeira fica estalando alto à noite também porque não tem nada pra fazer peso, ou sei lá o quê. Ela certamente saberia me explicar por que isso acontece...
E eu, o que sei das coisas, sobre mim, sobre as pessoas a minha volta? Nada! Bulhufas! Necas de pitibiriba! Ah, sei que minha mãe sofre de diabetes, e é só. Mas se me perguntarem o tipo, eu já não sei dizer... E essa tal de doença das Betes que dá no sangue. Perigoso. Coisa séria. Preciso tomar mais cuidado, fazer uns exames e tal. Gente, nem sei qual tipo de sangue eu tenho, vá dizer... Minto. Ela certa vez falou que o seu sangue não pode receber o de mais ninguém, mas não lembro o porquê. Frescura do cacete. Bom, eu não deveria estar falando essas coisas, ou deveria? Sei não, sei não. Mas o que é a vida senão um punhado generoso de incertezas? As flores, por exemplo, têm vida, e algumas têm espinhos, que as pessoas acham que são pra machucar, mas, na verdade, são suas defesas naturais. Nossa, lembrei de uma canção agora, como é mesmo? Peraí. E o meu jasmim da vida ressecô, morreu, dos pé que brotô Maria nem Margarida nasceu. Haha! Grande homem, esse Djavan, grande homem. Ela também secou, como acontece no sertão. Que vontade que me deu agora de dançar, sambar, até cair no chão. Rimou. E tem mais: bailar assoviando, porque ninguém nunca fez isso na história da humanidade. Eita, a humanidade. É um imenso radar, a humanidade. Se fez sempre e será assim. Descobrindo as pessoas e se valendo das almas e espíritos... Vivas, à humanidade e à democracia! Porque se a corrupção não existisse, não haveria humanidade. Essa é que é a verdade, não é? Por isso eu vivo feliz, porque eu não estou aqui, não sou a humanidade. Hum, que é? Tem que estar bêbado mesmo, me deixa quieto aqui. Também não faço questão das coisas. Que vá embora, que parta! Melhor assim. Meus pais não me criaram pra ser dependente de ninguém, estão ouvindo? De ninguém! Manolo, me traz aquela ali. Não, essa não, aquela. Isso! Não estou vendo muito bem, mas acho que é essa. Grande homem, esse manolo. E pra voar não é preciso muito, certo? Os poetas dizem isso sempre. Dê-me minhas asas, mas não me dê Redbull, haha!

Mil perdões. My mistake. Nossa. Não queria que você visse isso, eu... Devo ter falado tanta merda... O que foi que eu disse depois daquele troço? Não, não me conte. Prefiro nem saber. O manolinho ainda vai escrever um livro com tanto material comprometedor sobre mim. Com nota introdutória feita por ela. E olha só seus sapatos... São bem bonitos, mas... Quer dizer, foram, pois agora não estão mais por minha causa. Ela odiava sapatos bonitos, achava desnecessário. Uma vez eu quis impressionar e convidei ela para um jantar e fui todo galã porque achei que ela merecia. Me apresentei de smoking, com gravata borboleta e tudo mais. E logo eu que odeio roupa social. A reação dela foi dizer que eu tava exagerado, que não precisava de tudo aquilo. Pior noite da vida. Deveria ter gasto aquele dinheiro com outra urgência; sem falar do tempo, que poderia ter passado dormindo... Não sabia onde enfiar minha cara. Tá parecendo um déjà vu, porque também não sei onde enfiar a minha agora, depois esse vexame. Olha, fechei a boca e tentei segurar, mas não deu, juro por Deus. Quer dizer, juro pela minha vida, porque por Deus não se jura. Não, meus pais não eram cristãos. Quem me ensinou isso foi ela. Não. Não! Mas que porra é essa? Inventei de sair com você para tentar esquecer tudo isso e me embaracei ainda mais... Não, por favor! Sua companhia sempre é valiosa, mas veja bem, o amor, o amor poderia ser um bebê no ventre, não poderia? Sim, fica o tempo que tem que ficar, sai, corta o cordão umbilical e fica por isso mesmo. Quer dizer, cria-se a coisinha depois disso, mas no útero não resta mais nada... Hm, verdade, né? Você tem razão, ficam as cicatrizes... Vou pensar numa outra metáfora. Palavra bonita, essa. Ou melhor, a realidade é que tudo que pratica uma ação deixa o rastro do que foi ou fez antes disso. Devo aceitar esse fato, mas não tá sendo fácil. Enfim, quer subir, tomar um chá, mais um café forte? Tenho pão de queijo também... Ah, sim, entendo. O vagabundo da história aqui sou eu, né? Não, não se desculpe, tô só tirando uma com a sua cara. Caramba, tô parecendo ela. Não, mas chega de falar dela por hoje. Esqueça. Vou subir. Apareça mais, tá certo? Goodbye, my friend, a gente se fala. Fique bem. Obrigado. Até.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Contemplação

agora eu alcancei 
esta sensação da qual tanto falam os poetas,
os escritores de prosa,
os loucos
e os forasteiros de bar
nas conversas entre amigos.

nossos seres se confundiram,
devoraram-se,
procurando o tutano da alma do outro
com força visceral.
amamos humanamente,
as sentimentalidades regadas à saliva.
cazuza cantou foi sobre nós.

agora ambos descansam -
seus olhos de maresia cerrados
e os meus fixos em seus cabelos emaranhados em mim.
observo suas costelas...
pesando...
expandindo...
e retraindo...

aqui dentro há uma tal paz,
um tal perdão dos nervos,
uma tal desurgência das coisas...
tudo em volta se aquieta
e nos assiste.

maldita as horas que maltratam-me,
que embarcam desesperadas
no vagão do tempo
sem pedir a minha licença.
pois, do contrário,
seria eternamente cinco horas e dezessete minutos
desta tarde preguiçosa de domingo...

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Prima ver a

Ver a cidade
Ver tical
Ver tendo cores e
Ver sos sobre nossas
Ver sões das ditas
Ver dades deste mundo, com
Ver bos
Ver os do silêncio que meditam na
Ver a-efígie de nossos sonhos… Juntos,
Ver emos tudo isso.

sábado, 30 de agosto de 2014

Sampa

          São Paulo é o município mais populoso do País. São quase doze milhões de personagens se trombando todos os dias nas calçadas, nos elevadores, vagões de trem e metrô, filas de banco, teatros e cinemas, tanto na periferia quanto no centro, também nos remanescentes verdes chamados de praças... Em qualquer canto desta cidade seus cidadãos perfazem histórias. Boas e más. Alegres e tristes. Na verdade, bem mais dinâmicas e complexas do que isso, como demanda a vida. O trânsito que pulsa lento, à beira de um ataque cardíaco, faz vítimas do estresse e de acidentes. Mas também de paixonites e flertes. Você espirra e se torna responsável pela morte e pelo nascimento de um habitante paulistano. Compra-se flores para vivos e mortos. Enquanto um dorme e sonha, outro não dorme e versifica sua insônia. Pais levam seus filhos à escola, amantes consumam seus sentimentos em beijos, médicos dão consultas a seus pacientes, garis acabaram de varrer as valas e as mães tiraram as roupas do varal porque vai chover na Terra da Garoa. E estes que eu acabei de citar farão as mesmas coisas de formas díspares. São 11.895.893 nas estatísticas divulgadas anteontem, 28 de agosto de 2014, mas quase doze milhões de indivíduos absolutamente diferentes uns dos outros. Vale reforçar: somos desconhecidos mas seres únicos nesta maré de gente. O jovem que acabou de sair de casa pode ter dito tchau para os pais como pode não ter dito nada; é alto, nem tão alto, mais ou menos alto, baixinho, normal, pitoco; olhos verdes e arqueados, olhos azuis e arqueados, olhos castanhos e arqueados, olhos só castanhos; ri pelo canto da boca, ri escancaradamente ainda que sozinho, só ri com amigos, não ri porque é sério; lê muito, lê por obrigação, nem sabe ler; já teve filhos e se casou, já teve filhos e vai se casar, já se casou e vai ter um filho, acabou de ter um filho por saber que não vai mais casar; é nordestino, é carioca, é descendente de italiano, mineiro, francês, nem sabe de onde veio, é paulistano de nascença; (...). A ideia de habitante paulistano é uma complexidade em si mesma e a cidade se move neste mesmo ritmo. Move-se sobre trilhos, sobre asfalto, sobre prédios, sobre tudo. O único movimento que não é "sobre" é o "entre" de fios emaranhados e antenas conflitantes, que aproximam e afastam os habitantes paulistanos ao mesmo tempo. Disse bem Maria Rita que a vida deste nosso lugar é de idas e vindas, chegadas e partidas, encontros e despedidas. Prova disso é que são exatos 02:56 da madrugada e um avião está prestes a pousar no Aeroporto de Congonhas. Há habitantes paulistanos vigilantes como eu, mas não faço ideia de quantos são porque o IBGE não contabiliza este tipo de informação. Deveria. E digo mais: deveria saber quantos de nós gostam de feijoada; se preferem samba, pagode, chorinho ou nenhum dos dois; se escrevem cartões em datas comemorativas; quantas voltas dão na fechadura antes de sair de casa; se têm vontade de aprender a tocar algum instrumento musical; com que frequência dizem "eu te amo" e abraçam; se sabem andar de bicicleta; quantos são os que cheiram livros antes de comprá-los; se permitem-se ter momentos de ócio sem culpa; se existe ou não amor em esse pê; Nutella ou Paçoquita Cremosa? E acabou de sair um avião da capital paulista para o Aeroporto de Recife. Deve levar habitantes paulistanos que vão visitar habitantes de lá. Veio a minha mente agora que talvez os números sejam imprecisos. Afinal, para se tornar um número que seja, o habitante paulistano precisa, primeiro, comprovar que existe por meio de papéis. Sem estes papéis, ninguém existe, mesmo que comprove o fato de corpo presente. Na verdade, até para morrer é preciso ter papéis. E quantos habitam em São Paulo sem existir? Talvez nunca saberei. Contabilizados ou não, os habitantes paulistanos logo mais amanhecerão e povoarão as ruas, tecerão autonomamente colchas de retalhos de crônicas e mais crônicas. Quando me dou conta, reparo que este texto é uma pequeníssima mostra deste cenário plural e colaborativo, uma célula que se une à visão de outros tantos habitantes paulistanos sobre seu lugar de morada. São Paulo é mesmo pequena demais para abrigar tantos personagens e histórias... Mas gosto dela desse jeitinho, sempre tendo algo para contar.  

terça-feira, 19 de agosto de 2014

sábado, 16 de agosto de 2014

A Note to Somebody

I built a home
For you and for me
At the highest mountain
In the chest of the highest tree.

Ahead, the forest,
Crowned by vast green,
Dances when the wind blows
And welcomes nests in due time.

There, the shore
Lies sleepy under the sea
Which waves my wonderful boat
Named Pasárgada, the walker of the world.

Here, a few clouds
Covers these abundant skies,
Like a red curtain covers a theater stage
To reveal the myriad of actors from day and night.

It's all done:
The porch to enjoy the view,
The sweet tea to taste while seeing the sea
And a constellations' map to name all the stars above.

I built a home
For you and for me
But you did not come to me,
Neither warned me if you are safe and fine.

So I got to leave our home
To a beautiful and miserable moon
That shone brighter, invaded the wide room,
Showed no respect for the place I had carefully prepared for you.

domingo, 10 de agosto de 2014

- 5 -

Terminamos. Mas como o amor nem sempre é justo, as relações foram rasgadas em partes desiguais. Eu fiquei com praticamente tudo, e você escapou ileso. Você sutilmente sorriu quando disse adeus, e o adeus me arrancou o sorriso da face. Me anulou por inteira. Quando você me deu as costas e partiu, foi como se todo o tempo que passamos juntos tivesse virado areia de repente. Minha palma mais apertada não reteve um grão sequer - escorreu tudo asperamente por entre os dedos. Comigo só restaram seus olhos, emaranhados nos seus cabelos, embalados no seu cheiro, registrados nas fotografias, guardados dentro deste peito oco que eu tanto quero me desfazer agora.
Neste momento, você já deve ter chegado em casa e largado os sapatos em algum canto. Deve estar deitado, submerso em alívio. Esta noite meu corpo agônico se ergue sobre um caixote na rua e grita a plenos pulmões esgotados, porque eu amei, mas você não amou por mim.

sábado, 9 de agosto de 2014

Solitude Minha

Tenho medo de tudo o que possa me amedrontar.
Tenho medo do que sinto por você.
É errado e perigoso,
mas não consigo evitar.
Tenho medo de entrar em seus olhos
tão lívidos e verdes,
nesta floresta densa e escura
e não achar o caminho de volta.
Tenho medo deste meu sofrimento
causado por ti,
de formas obscuras e latejantes,
agudas como as notas de um violino -
quase inaudíveis, mas que tocam por dentro.
Medo pelo que você é.
Medo pela droga que me sinto perto de ti.
Medo por tentar me ajudar e não conseguir sair
deste buraco, túnel, prisão, ...
Diabos, seja lá o que for, mas só existe você
neste vazio, neste nada, neste infinito
em que estou metido.
Infinito oblíquo, dissimulado.
Rosa, despedaçada, em sangue e em dor.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Concorrência

O primeiro foi o Vendedor A, que por pouco não deu as caras nesta crônica. Isso porque ele apareceu de supetão, depois do aviso sonoro, quando as portas estavam prestes a se fechar. Ao se atirar, esbarrou num cara, a quem pediu "desculpas, patrão". Ajeitou o boné. Arregaçou a sacola que tinha nas mãos. Esperou que o trem tomasse certa distância da plataforma, então começou:
- Olha aí, pessoal, só na minha mão você leva chocolate Garoto por apenas 1 real... Chocolate ao leite de qualidade é só aqui. Vamos lá, pessoal, é pra acabar... Só na minha mão você leva chocolate Garoto por 1 real... Lá fora você vai pagar de 1,50 até 3 reais, mas aqui na minha mão, chocolate Garoto é só 1 real.

O Vendedor B chegou sorrateiramente, como quem não quer nada. Baixou a sacola plástica e deixou no chão. Se arrependeu, pegou a sacola de novo. Estava de bermuda e camiseta, apesar do frio. Permaneceu encostado ao lado da porta até ela fechar. Desconfiado, olhou para um lado, para o outro, atravessou o corredor. Daí:
- Primeiramente boa tarde, pessoal. Eu venho trazer pra vocês o delicioso chocolate Tortuguita por apenas 1 real... É chocolate Tortuguita recheado de baunilha ou brigadeiro. É só escolher, pessoal... Por aí você paga até 3 reais, mas aqui na minha mão é só 1 real!... Vamos lá que é pra acabar, pessoal!... Eu vou descer aqui na Água Branca, então é a última oportunidade... Antes de sair eu gostaria de pedir uma coisa pra vocês: entrar no site da Tortuguita e dar uma curtida no projeto deles. O projeto é com o Tamar, que cuida das nossas tartarugas. É por isso que eu só trabalho com esse produto, porque eu achei bem bacana esse projeto. Então quem puder, é só entrar no site e dar uma curtida que eu vou ficar muito agradecido. Valeu, pessoal!

A informação de quem vendeu mais fica por conta da inferência do leitor.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Existência

Estava lendo de cabeça baixa quando a Existência despiu-se por completo. Como uma apunhalada repentina na nuca, um frio percorreu a espinha de Lúcio por meio da ideia gritante de que existia. De repente, deu-se conta de seu corpo, de suas pontas, de seus limites. Levantou a cabeça devagar e cautelosamente, acostumando-se com a sua forma como se tivesse acabado de vir à luz, e observou os outros passageiros que, aparentemente, estavam alheios àquela descoberta íntima.
Ao seu lado, havia um indivíduo. (Pausa.) Reforçou o pensamento: a pouquíssimos milímetros do seu lado havia um indivíduo, corpóreo, que abrigava coisas que fugiam do seu conhecimento. Até porque as pessoas têm existências diferentes umas das outras, tão sabidas quanto a de seus vizinhos do barulhento 703, no Bloco D, sobre o qual está empilhado; 801, 802 e 804, que o limitam; 801 do Bloco A, que cobre sua vista do sol; 903, que o comprime, esmaga; e 1.104 do Bloco C, que geralmente para na vaga de garagem ao lado da sua.
Mas qual era a existência deste indivíduo? O corpo de Lúcio estava sentado ao lado deste outro corpo, compartilhando um espaço em comum, e nada sabia sobre ele. Intrigou-se. Se estendesse as mãos, tocaria no Outro. (Valha-me Deus!) Não somente isso, mas o sentiria, e ainda assim pouco saberia sobre ele. Baixou os olhos novamente e tentou situar-se no tempo e no espaço para não ficar solto desse jeito. Viver sem rédeas assim é inconcebível, coisa de louco. Viver desprendido do que quer que seja é insanidade, tem sim é que voltar. Agora ele inspirou, pensando que dessa forma retornaria ao estado anterior, a de que existia simplesmente sem ter a consciência disso para no fim descansar em paz como qualquer outro ser mortal. Mas foi em vão.
Sua existência era o agora. Ou será que não? A vida é uma palma no infinito. Reverbera o som... e some – já não está mais em tempo ou espaço algum. Ou será que não? Quem sabe o som só se dissipa, se enfraquece, se torna inaudível, mas continua a existir. Ou será que não? Intrigou-se. Pois o que será que vinha antes da palma? “Deus”, emendou logo, nervoso, querendo voltar à realidade, “antes da palma vem Deus”. Mas a imagem não lhe ofereceu conforto, pois o que sabe é que Deus é uma palma que nunca foi batida; é som que reverbera desde sempre e no sempre do porvir como no instante agora.
A vida intimidava! Ela abundava impiedosamente sobre o corpo friorento de Lúcio, que se comprimia por não conseguir assimilar toda a existência que acontecia simultaneamente neste exato momento. Concentrava-se no corpo vizinho, mas enquanto pensava nele, sabia que outro corpo existia sem precisar ser percebido, sem a força de um pensamento como o dele. Ele era mais um, assim como ele não era o centro da Terra, pois este não é o centro do nosso sistema, que por sua vez não está no meio do Universo, que, assim por diante, está enfiado num nada infinito que não tem meio porque nunca fincaram-lhe um ponto específico para ser dito: “Aqui é o início”.
Neste mundo vivem milhares de corpos autônomos, além de outros tantos corpos que habitaram este planeta e que deixaram o rastro de sua existência aqui. Mas aqui como, onde? As existências conhecidas são poucas, e ainda assim, nem todos as conhecem; sem falar de que algumas delas são baseadas em registros incertos, tão degradados como a palma que some. Descrever – organizar, expressar, racionalizar, destrinchar (...), como queira – tudo isso tudo num papel seria inútil a Lúcio: nada escapa de uma ordem irremediável, da sucessão de fatos que observa. Não conseguiria expressar a onisciência (parte orgânica, parte incorpórea) destes seres todos que Lúcio pensava existir e tentava inutilmente digerir. E mais:
Próxima estação: Paulista, transferência para a linha Dois-Verde do Metrô.
“É aqui que eu desço, é aqui”, sussurou Lúcio, exasperado, despertando. Com a mente inerte no momento agora, ele pediu licença ao Outro e saiu apressado, incorporando-se à correnteza de outros tantos indivíduos – um grande e besta cardume de peixes vivendo em seus trilhos de existências translúcidas e breves como o dia, tão monótonas aqui como no momento primeiro e também durante o porvir.

sábado, 26 de julho de 2014

Metalinguagem

Eu costumava atribuir-lhe o título de deusa em meus poemas.
Teus aspectos são, de fato, divinos.
Mas depois dei-me conta do sacrilégio da minha metáfora.
O sagrado tem dessas de ser intocável para que a sua pureza não seja maculada;
tem dessa contemplação à distância, pois sua aura não deve ser transposta;
tem dessa relação quase impessoal, pois são seres superiores, de todo modo.


Revisei meus poemas.
Passo a tratar-te como "semideusa".
És assim mesmo, o híbrido.
Assim posso provar da intimidade de beijar-lhe
o rosto,
a boca
e os seios,
mas com fervorosa devoção.
Quero atravessar
e apalpar a sua alma sem profaná-la.
Sentir-me indigno de estar em sua companhia, mergulhado em seus cabelos de luz,
como se fosse a resposta piedosa de uma prece.
És semideusa porque não te prendes a nada:
volta quando quer,
parte quando quer.
Tens dessas coisas semideusas, atendes a teu lado mortal e divino.
Como sou apenas humano, eu aguardo, carcomido até a tua próxima bênção.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Confissão

Toco meu rosto.
Estou cansado.
Aqui dentro, acumulado,
o amor me consome.

Não peço muito.
Quero apenas ser a parte necessária de alguém,
defeitos inclusos,
e ser recíproco.

Mas o coração continua a estalar como um móvel antigo,
que já se acostumou com a ideia de se expandir e retrair
em vão.

Estou prenhe de amor
e virgem dos teus beijos.
Ah!, o ímpeto de amar:
nasci deste desejo.

Amor,
troco minhas várias noites insones cavando poços fundos de solidão
por uma apenas,
cavando um lar feliz na relva do seu peito.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

quarta-feira, 23 de julho de 2014

terça-feira, 22 de julho de 2014

Cena Avulsa Nº 1

Mesmo em pé no ônibus lotado, tirou do bolso o celular. Desbloqueou a tela. Alguns toques nela e ateu-se por um momento à leitura. Depois, um sorriso prolongado. E o estímulo era tanto que por pouco não se converteu num som que, sem dúvida alguma, chamaria a atenção dos paulistanos carrancudos que compartilhavam o mesmo espaço mínimo. A cena não os contagiaria. Muito pelo contrário, teria incomodado os demais. Eu tive que me conter no assento, restrito apenas à observação. Fiquei imaginando quem seria a pessoa do outro lado da tela. De uma coisa eu tenho plena certeza: é um ser miserável. Por não ter dito a mensagem cara a cara, tête-à-tête, com a entonação de voz própria ao invés de letras pretas e insossas numa parede branca, perdeu o sorriso mais lindo deste planeta. Um tal sorriso que se abriu como uma janela, bem escancarada pra um dia bom…

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Copa das Copas

Para a alegria ou tristeza de nossos pessimistas, teve Copa sim, teve Copa bem boa, teve Copa demais! Leia isso considerando que quem vos escreve é uma besta futebolística, tanto na técnica quanto na teoria. Os pré-históricos sabem mais do que eu.
 Já no aquecimento para o Mundial, presenciei a busca voraz de muitos para completar o álbum da Copa. Meus colegas se tornaram crianças. Ouvi relatos de gente virando a noite colando figuras, montando planilhas, comparecendo aos grupos de trocas. Crianças, velhos, homens, mulheres, altos, baixos, gordos, magros, palmeirenses, corinthianos - tinha de tudo um pouco. “E você é de onde?”, ouvi um cara perguntando ao outro, em um encontro num shopping. “Guarulhos”, o outro respondeu, já passando o elástico em volta do bolo nas mãos, findando o escambo. “Opa, sou de lá também!” Seguiram os dois. No final, já tinham percebido que moravam perto e que na esquina tal, ali, na ladeira xis, em frente ao mercado dois, haveria mais troca no próximo final de semana. Combinaram de se encontrar e foram embora.
 De repente, não mais que de repente, começaram a brotar em terras paulistas uma infinidade de mexicanos nos barzinhos, alemães na Paulista, argentinos na Anhangabaú, franceses no Museu do Futebol, colombianos e chilenos no Parque do Ibirapuera. De repente, o metrô que eu pego cotidianamente começa a dizer “next station…” e “access to subway line…”. De repente, tenho de ensinar a um grupo de turistas (acredito que eram de algum lugar dos Balcãs, mas como chuto mal, posso estar tremendamente errado) como inserir o bilhete na catraca. De repente, na Luz, o vaivém cinzento de pessoas indo labutar dá lugar a ondas coloridas que mudavam conforme o dia: ora laranja mecânico, ora vermelho “olé”, ora xadrez croata.
  Mas a onda maior, a mais forte, mais intensa, sem dúvida alguma, foi a tupiniquim, verde e amarela, canarinha. Não só porque sustentamos a seleção brasileira quando não jogava bem ou, pior, dava vexame (opa, mais um gol da Alemanha!), mas porque o cenário fora dos estádios foi um espetáculo à parte. Acolhemos tão bem nossos visitantes que eles querem voltar. Nisto fomos, realmente, vencedores. Frustramos a imagem de que quem tentasse vir pra cá nem chegaria porque haveria filas nos aeroportos. E se, com sorte, chegasse, então seria roubado. Ou se não fosse roubado, não aproveitaria bem as cidades-sede porque o trânsito seria caótico. Por aí vai…
  Os odiadores me odiarão porque não citei as partes negativas da Copa. Sei bem delas ($$$, […]), porém não vou demonizar a festa e colocar na conta do futebol, que é, ou deveria ser, um esporte para nos entreter, emocionar, divertir (e o que há de tão mal nisso?). Coisa de quem não sabe dar a Cesar o que é de Cesar. Misturam as coisas como fizeram no incidente do Neymar e da queda do viaduto em BH. Duas notícias tristes, mas houve quem julgasse um esdrúxulo sentir pelos dois fatos.
            Enfim, a Copa do Mundo de 2014 vai fazer bastante falta. Vou sentir saudade desse mix de povos, das torcidas, dos jogos decididos nos minutos finais para desespero dos apostadores de bolões da firma, das bizarrices à la mordidas del Suárez. Dos memes! (Meu Deus, o que será de mim sem os memes?) Copa da Zoeira, já pode voltar!!!

quarta-feira, 9 de julho de 2014

À Noite

O coração bate forte,
como que quer bater tudo o que
não bateu hoje.
E dá vontade
de descer as escadas e andar pelas ruas da cidade
e mastigar o frio no ermo da cidade
à noite, a lua clara de verdade
e pela verdade, com uma música irritante
como companhia, quero velocidade
olhando pra cima sem esbarrar em nada: liberdade,
é muito do que não existe aqui, e claridade
nem sempre é preciso mas, na verdade,
o que me falta aqui é água fria no balde
e coragem, pra conseguir afogar minha maldade.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sobre bolsos internos

          Se existe uma coisa que eu queria ter quando era pequeno era um terno. Não sei explicar por que, mas os ternos de meu pai me passavam um senso de responsabilidade que eu almejava. Com um terno, homens pegavam transporte público ou carro para ir aonde eu não fazia ideia, até porque esta cidade tinha o tamanho do Universo na minha cabeça de cinco, seis anos de idade, para fazer suas tarefas diárias e depois voltar ao conforto do lar.
          O que também me fascinava no terno eram os bolsos internos do paletó, em especial os de meu pai. Lá, ele colocava tudo: um lenço, uma caneta, um pedaço de papel, outros pormenores e... moedas de troco. Ah!, as moedas de troco! Era um compromisso meu ir diariamente ao quarto de meus pais, em surdina, às cinco da tarde, para vasculhar os Bolsos Internos do paletó do dia. Minha fortuna eram dez, quinze centavos. Com sorte, encontrava moedas de cinquenta, daí eu era o ricaço da vez (dava pra encher um saquinho de balas na esquina)!
          Tudo isso pode parecer um monte de bobagens a você, adulto trabalhador, mas apenas tente desfazer a fantasia de uma criança... Além de inútil, seria perverso.
            Pois bem, este sentimento foi acentuado após a leitura de um livro que eu gostava muito, chamado “O Terno Tanto Faz Como Tanto Fez”, da poetisa norte-americana Sylvia Plath. Ele conta a história de Max Nix, um garoto que morava com os pais e seis irmãos em uma cidade chamada Winkelburgo. Embora Max tivesse uma vida de dar inveja, ele ainda tinha um desejo: “mais que tudo no mundo Max Nix queria ter um terno”, o qual pudesse usar em toda e qualquer ocasião.
            Como eu era o único filho da família (tinha, na época, apenas uma irmã mais velha), logo eu herdaria os ternos de meu pai. Minhas esperanças se avolumaram junto à vontade de crescer mais rápido, ao menos o suficiente para “vestir” meu sonho.
            Certo dia, minha mãe, que costura por hobby e às vezes faz um serviço aqui e outro ali, me chamou em seu ateliê para provar uma blusa de moletom. Não era a primeira vez que ela fazia aquilo – minha mãe sempre fez e ajustou roupas para todos da família. Esta peça em especial era azul marinho por fora, tinha forro listrado em branco e azul, e um zíper dourado. Até aí, nada de impressionante. Mas quando eu vesti a blusa, percebi algo: na parte de dentro, havia um bolso. Sim, meu caro leitor, era um bolso interno como o dos paletós de meu pai.
            Daquele dia em diante, aquele casaco se tornou o meu preferido, minha ostentação infantil. E como eu só podia usá-lo nos dias frios, logo eles também se tornaram especiais. Na ocasião, acordava mais cedo para ir à escola e guardava parte dos meus pertences no meu Bolso Interno. Saía porta afora e dizia a mim mesmo, mentalmente: “Vamos trabalhar, Gustavo”, e me imaginava percorrendo um longo caminho de ônibus ou trem, embora minha casa distasse apenas uma quadra do prezinho onde estudei. Na sala de aula, muito a fazer: lápis e cadernos para manter organizados, pilha de desenhos para colorir, o brinquedo para cuidar, o comparecimento obrigatório ao parquinho, a areia para tirar de dentro do tênis... Ufa!
          De vez em quando eu relembro essas cenas quase que claramente. Não tem como evitar, afinal, o prezinho ainda continua lá, a uma quadra de casa. A diferença é que hoje eu de fato pego transporte para chegar ao trabalho, e a cidade de São Paulo já não é tão Universo assim. Eu (infelizmente) já não visto mais a grife Mãe, sob medida, nem surrupio mais as moedas do meu pai (passei a bola para meu irmão mais novo). E mesmo agora, crescido, não uso terno (se bem que as vezes que precisei usar tiraram todo o meu encanto pela peça). De qualquer forma, hoje eu tenho alguns casacos que não são de moletom, também não são azuis nem possuem zíper dourado, mas têm bolso interno. E lá, eu coloco a minha nostalgia junto a tudo o mais que necessito.         

segunda-feira, 23 de junho de 2014

- 3 -

Menina, menina,
  Desprenda-te logo da vida!
Ela não vai fluir
  Com você em seu encalço.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Diário de Bordo

Para ir a terras novas,
meteram meu coração
num navio negreiro.

Dizem ser lá terras d'Amor
onde não há nativos,
somente estrangeiros.

Rumorejam também que
a viagem guarda perigos
e rende bons cancioneiros.

Seja lá como pareça o'Amor,
queira Deus realizar meu desejo
frívolo de lá chegar por inteiro.

domingo, 2 de março de 2014

Prepara-te

Vista tua camisola,
prenda teus botões,
que na virada da noite
vai chegar a primavera
pra tornar-te a vide florida
primogênita da estação.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Anos ímpares

Ano passado foi bom.
E este, será que será?
Que insegurança que dá
não ter previsão!

Ano passado tive aconchego.
E este, será que terá?
Já me bate uma saudade
que não cabe no peito não!

E então? O que eu faço agora,
se meus braços tomaram
a sua forma?

Foi culpa sua
ter feito de mim um cara ímpar:
com mais ninguém faço par.